Adeus itens mágicos

Este artigo foi ao ar no dia 06 de julho de 2011 no Dungeon’s Master sob o título original “What Do You Mean All My Magic Items Are Gone!” e foi escrito pelo Ameron. Espero que curtam o artigo e comentem.


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Se você quiser jogadores furiosos, desejando que o mestre seja obliterado da existência, retire todos os seus itens mágicos. Quanto mais itens os personagens possuírem e quanto mais poderosos estes itens sejam, maiores são os riscos reais a vida do mestre. Nada enfurece mais os jogadores do que perderem seus itens mágicos.


Ao longo de todas as edições de Dungeons & Dragons, um dos maiores problemas enfrentados pelos jogadores é a quebra de poder ocasionada pela perda dos itens mágicos, uma vez que isso muda drasticamente a balança de poder. Tão logo um dos personagens adquira um item mágico, todos os demais membros do grupo passam a desejar um também, isso por que os itens mágicos permitem que os personagens realizem façanhas realmente grandiosas. O mestre passa então a fornecer mais itens, que aumentam o poder dos personagens exponencialmente, muito além do nível de um personagem do mesmo nível que não possua itens.


Os melhores itens são aqueles que concedem bônus nas jogadas de ataque e melhoram as defesas, o que obriga o mestre a desenvolver encontros com monstros mais fortes, na tentativa de que o encontro seja desafiador. Quando os personagens vencem essas criaturas (em lutas que normalmente os personagens não perdem), eles esperam encontrar tesouros proporcionais ao nível do monstro, e o ciclo continua.


Manter o ciclo implica, rapidamente, numa abundância muito grande de itens mágicos e o jogo passa a se enquadrar no estilo Monty Hall. Já tive problemas de escalonamento de poder por itens mágicos em todas as edições de D&D que joguei. Muitos culpam o mestre quando isso acontece e isso acontece porque a maioria dos mestres prefere ser generosos a restritivos.


Meu grupo de jogo regular está atualmente no 19º nível e eu resolvi fazer um inventário para determinar quantos itens mágicos nós possuímos. Todos os jogadores do grupo possuem todos os slots de itens mágicos preenchidos e todos os itens estão entre os níveis 15 e 20. Meu personagem só possui um item não-exemplar, uma bag of holding cheia de itens entre os níveis 15 e 20. Além dos itens mágicos, meu personagem tem tantas peças de ouro que eu não sei o que fazer com elas.


No fim de cada seção de jogo, o mestre pergunta se queremos atualizar nossa lista de desejos de itens mágicos. Nas últimas seções tenho deixado essa lista em branco, pois simplesmente não existe mais nada que eu queira. Na verdade, eu nem quero atualizar meus itens mágicos. Eu gostaria do desafio de ter armas e armaduras que não tenham o mesmo nível que meu personagem, pois percebi que muitos encontros, embora divertidos, não são desafiadores devido a grande quantidade de itens que tenho a minha disposição.


Baseando-se nisso comecei a pensar no impensável. Quando for minha vez de mestrar, estou pensando seriamente em remover todos os itens mágicos dos personagens. Como personagens de nível 19 eles continuarão a vencer a maioria dos encontros equilibrados, e eles serão realmente desafiadores.


Eu sei que só sugerir isso pode resultar em meus jogadores tentando sufocar-me durante o sono, então preciso justificar a forma como farei isso. Em primeiro lugar eu vou implantar o bônus inerente (introduzido pelo cenário pobre em magia Dark Sun e tornado oficial no Player’s Handbook 3). Isso deve conceder aos personagens modificadores para ataque e defesas de acordo com seu nível. Os personagens no 19º nível ganharão +4 nas jogadas de ataque e nas defesas, independente das armas e armaduras que estejam usando.


O desafio real será explicar, tanto em termos de jogo quanto fora dele, como algo tão radical poderia acontecer. No passado já usei monstros de ferrugem, criações próprias e de fontes obscuras. Felizmente, na 4E temos os dweomer eater, que embora não destruam armas e armaduras, conseguem remover completamente seus encantamentos.


Aprisionar os membros do grupo também seria uma opção, afinal, quem os jogaria numa cela antes de remover todos os seus itens? Uma das vantagens de usar esta abordagem é que os itens ainda existem e os personagens podem recuperá-los, embora não resolva o problema como um tudo. Pelo menos servirá para mostrar aos jogadores que seus personagens são capazes de grandes façanhas, mesmo sem o auxílio de itens mágicos.


Devo admitir que de todas as edições de D&D, a 4E foi a que o problema de escalonamento de poder tem sido menor (embora certamente ainda exista). As parcelas de tesouro e itens com níveis ajudaram a manter as coisas mais equilibradas. Meu problema passa a ser também com a quantidade de itens com os quais os personagens se equipam e a grande quantidade de poderes que esses lhes concedem.


Outro problema com grupos ricos em itens mágicos é o sentimento de que nada que eles possuem realmente é especial. Nos artigos “What’s a +1 Sword?” (//O que é uma espada +1?) e “Who Owned Your Magic Sword Before You Did?” focamos na raridade dos itens mágicos e a importância de incorporar isso em seu jogo. Infelizmente, a maioria dos jogos que tenho jogado os personagens não tem uma apreciação real pela raridade dos itens mágicos. Tire os itens mágicos e observe o grupo lutar por uma espada +1. Rapidamente eles começarão a apreciar o valor do único item mágico do grupo.


Você acha que a abundância de itens leva a um escalonamento indesejado de poder na 4E? Vocês já retiraram todos os itens mágicos de seus personagens? Como você fez isso? Como os jogadores reagiram? Você devolveu seus itens ou eles tiveram que recuperar seu inventário item por item? E como jogador? Como você reagiria se o mestre de uma hora pra outra removesse todos os itens mágicos? Uma explicação em jogo realmente interessante para uma tomada de decisão tão radical afetaria sua opinião sobre o fato?

6 Responsesto “Adeus itens mágicos”

  1. Yuri disse:

    Bem, quando eu jogava AD&D, os mestres colocavam uma série de restrições para a obtenção. Meu personagem mais “poderoso” (um druida) por assim dizer de 15º nível tinha uma bola de cristal e um cajado +1 e os demais andavam na mesma linha. Eu creio que o mestre deve limitar os itens, mesmo que as regras digam ao contrário. Ou use a boa e velha tática de Midnight: itens são raros e por serem muito cobiçados, são perigosos de se possuirem….

  2. Franciolli disse:

    Obrigado pelo comentário Yuri.

    Embora eu goste muito do cenário de campanha de Forgotten Realms, algo que sempre me preocupei é com o comércio de itens mágicos, o que banaliza demais os itens mágicos.

    Na quarta edição então, embora os itens mágicos tenham perdido um pouco de seus “atributos overpower” que era justamente a concessão de bônus em atributos (o principal problema dos itens pra mim), eles fazem parte de listas de desejos. O cara coloca que gostaria de uma espada +3 e na próxima aventura ela aparece.

    Dark Sun trouxe a regra de Bônus Inerente e acredito que tantas pessoas estavam sentindo a desproporcionalidade dos itens mágicos que ele virou regra oficial no Players Handbook 3.

    Distribuir itens mágicos sim, mas eles precisam ser raros e na aventura essa sensação de raridade REALMENTE deve existir.

  3. Yuri disse:

    Sabe o que é realmente divertido? Dê um item mágico amaldiçoado…..#evil

  4. Franciolli disse:

    Itens amaldiçoados são realmente uma grande sacada, melhor ainda quando os personagens demoram muito tempo para descobrir que são amaldiçoados.

  5. Milton Diogo disse:

    O Kalderash tinha feito um comentário no FB sobre essa visão de deixar os itens mágicos mais raros. Gostei muito do artigo. Vou colocar em prática na minha mesa (e preparar pra ser sufocado durante o sono^^).

    Ah, Francioli, você é cientista de que área?

    Tá favoritado o blog o

  6. Franciolli disse:

    Saudações Milton.

    Obrigado por comentar e favoritar o blog. Embora ele não esteja sendo atualizado com a frequência que eu desejo, ele não está morto e logo logo mais artigos começarão a surgir.

    Respondendo a sua pergunta sobre a área na qual desenvolvo pesquisa, sou pesquisador da área de Tratamento de Minérios.

    Grande abraço.

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